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Canal 100, a Magia do Cinema e a Turma da Zoação

07:50 José Guilherme Wasner Machado 3 Comentários Categoria: , , ,


Vi hoje esse artigo no Blog do Juca Kfouri sobre o Canal 100. Não pude evitar ser tomado por uma fortíssima dose de nostalgia. Para quem não conhece, o Canal 100 era um programa jornalístico que passava regularmente nos cinemas, até o início dos anos 80, antes do filme começar. O jornal, que não tinha uma duração muito longa, ficou famoso por exibir lances dos jogos de futebol da época, em imagens impressionantes e com uma narração marcante. Mas, para mim, o Canal 100 era mais do que um conjunto de belas imagens. Para mim, ele simbolizava o Cinema.

Entre minha infância e o início da adolescência, não havia nada que eu amasse mais do que o cinema. Não apenas "assistir filmes", entenda, mas todo o processo de ir ao cinema. Naquela época não existiam TVs gigantes de altíssima resolução. Não existia TV a cabo, com suas centenas de canais. Não existia Netflix. Não existia internet. Não existia DVD ou Blu-ray. Tínhamos que nos contentar com TVs pequenas. Com imagens, via de regra, borradas e cheias de fantasmas. Havia uns quatro canais e a programação era anêmica, na melhor das hipóteses. O VHS, por mais tosco que pareça hoje em dia, ainda estava em um futuro longínquo. Assistir ao que eu quiser, em casa, no momento em que eu bem entender? Ficção científica! Assim, se você adorava filmes, e vivia nos anos 80, era no cinema que você tinha de estar.

Justamente por conta de toda essa limitação, o ato de ir ao cinema era algo especial, emocionante. A chegada de um novo filme era um acontecimento. Uma oportunidade única. Afinal, depois que ele saísse de cartaz, poderiam se passar anos antes que você conseguisse vê-lo novamente - SE conseguisse. E talvez jamais com a mesma qualidade. Hoje, poucos meses após a chegada de um filme ao cinema, já é possível obter o seu blu-ray. Mas, naquela época, ou você assistia ao filme no cinema, ou aguardava três, quatro, cinco anos, para vê-lo numa TV com menos de 20 polegadas, dublado, com inúmeros comerciais e péssimas imagens de baixa resolução. Com sua avó reclamando, sua irmã pequena gritando a plenos pulmões e seus pais mandando você ir dormir. Sim, naquela época os pais ainda possuíam alguma autoridade.

Se você era um adolescente e fã de alguma franquia - digamos, Star Wars ou Star Trek - a emoção beirava o frenesi. Era o meu caso, confesso. Sim, eu era (sou) nerd, e naquela época isso não era algo tão "cool" como é hoje em dia. Eu ficava contando os dias antes de alguma estréia importante. Isso, meses antes do filme entrar em cartaz. Impossível mensurar a emoção quando este momento tão ansiosamente aguardado finalmente chegava e eu estava lá, sentado na poltrona do cinema, a instantes do meu deslumbramento . E, claro, lá se encontrava o familiar e acolhedor Canal 100 para nos recepcionar naquele mundo encantado. Difícil não ser tomado por um sentimento quase religioso, arrepiante, sobrenatural. Enfim, algo completamente diferente da experiência banal, rotineira, irrelevante - e, convenhamos, irritante - que se tornou nos dias de hoje

Sim, chegou o "momento velho rabugento", pelo qual peço desculpas antecipamente. Mas a verdade é que esses tempos pertencem agora ao passado. O cinema virou apenas um lugar como qualquer outro. Turmas de adolescentes vão lá para "zoar" e tentar se afirmar como alfa (quem sabe, beta) dentro do grupo. Legiões de mal educados vão para bater papo ou consultar seus smartphones, incessantemente. Afinal, é impensável deixar passar alguma "curtida" ou "cutucada". Casais aproveitam o momento para discutir a relação. E todos vão para se empanturrar com hectolitros de refrigerante e baldes pantagruélicos de pipoca amanteigada e fedorenta. Entende-se. Afinal, é humanamente impossível ficar por duas horas inteiras sem mastigar alguma coisa, não é? (*)

E os filmes? Ah, pois é... os filmes. Quase íamos esquecendo deles!

Os filmes, bem, são o que menos importa em um cinema, nos dias atuais. Os filmes são irrelevantes. Os filmes são apenas um pretexto. Um  motivo para sair de casa e se empanturrar com trash food e "zoar" com a galera. Acho que é por isso que os blockbusters atuais são tão absolutamente acéfalos. Apenas showrooms de efeitos especiais, com roteiro e personagens que parecem ter saído de um desenho do Scooby-Doo. Afinal, ninguém presta mesmo atenção na história. Desde que tenham explosões, lutas, correrias e efeitos "irados" para, eventualmente, atrair os olhos do espectador, já está de bom tamanho. Missão cumprida. Se o roteiro está cheio de furos, falhas de lógica ou personagens caricatos, ninguém percebe. Ninguém está ali ligando os pontos. Pelo contrário. Os diálogos mais longos só servem para o público bater papo ou consultar seus celulares. Afinal, eles estão ali para se DIVERTIR. Poxa, pagaram um ingresso caríssimo e ainda querem que eles PENSEM? Vem daí o sucesso de produções como Transformers ou Os Vingadores. Desde que você olhe para a tela a cada 15 minutos, estará tudo bem. Mas jamais cometa o erro de realmente prestar atenção. Tsc, seu amador. Vá acompanhado de uma turma de zoação. Seus amigos o distrairão e você não cometerá tamanha heresia, o que garantirá sua satisfação.

Longe de mim dizer como cada pessoa deve se divertir. Mas a verdade é que essa combinação de "filmes para pessoas com déficit de atenção" mais "ambiente  de zoação" está acabando com a minha diversão. Minha e de todos que amam o cinema de fato - não essa Casa da Mãe Joana que se tornou. Com isso, estamos deixando de frequentá-lo. Melhor assistir filmes em casa, salvos por tecnologias cada vez mais sofisticadas. Quanto a isto, tudo bem. Mas aquela antiga magia, que arrepiava os cabelos da nuca quando as luzes se apagavam e o Canal 100 começava, essa não tem mais retorno. Não existe alternativa. É parte de um passado que jamais voltará. E as novas gerações jamais saberão o quanto perderam. Mas tudo bem. Agora tem balde de pipoca de dois quilos. Dois quilos, truta!

(*) Sim, na minha época existiam chatos e bagunceiros, mas a esmagadora maioria dos frequentadores ficava quieta e prestava atenção. O objetivo maior era assistir ao filme, até por não haver alternativa ao cinema para fazê-lo. Além disso, os celulares não existiam. E pipocas tinha tamanho padrão "de carrocinha". Glorioso.

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3 comentários

  1. Realmente a magia do cinema perdeu seu brilho. Na era da escassez cada oportunidade de ver um filme era única. Hoje já gozam o povo que só ficam na tela principal do Netflix, entram em um episódio ou filme, assistem 5 minutos, e depois voltam para a tela principal para escolher outro, que também nunca terminam.

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  2. colocando saudosismo, imaginem Os 10 Mandamentos, Exodus eoutros com aquela musica de introdução. E o filme Pantera cor de rosa que gerou outros filmes, desenhos da pantera (originalmente era só apresentação dos creditos) e a musica. e o Poderoso Chefão I. que filme, que musica!

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